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Crônica
Publicada no Site www.ancomarcio.com José Virgolino de Alencar
Obrigação, devoção e diversão
Três circunstâncias ou qualidades deve guiar o homem na vida: a obrigação, a devoção e a diversão. Nestas três palavrinhas estão resumidos os caminhos básicos que o homem deve trilhar, tudo o mais será decorrente delas ou consubstanciado nelas. A obrigação está na exigência que tem o cidadão de cumprir deveres, normas, trabalhar, produzir, construir, enfim, contribuir para que a sociedade tenha os meios de sobrevivência. Sem os construtores, inventores, criadores, a vida não evoluiria, as sociedades continuariam na idade da pedra. A obrigação deve partir de casa, da organização do lar, da estrutura da família, e daí partir para buscar e alcançar estabelecer a ordem, criar meios e condições para que a humanidade tenha os pilares de sustentação de uma vida harmônica. A devoção, representada na crença, na fé, na espiritualidade, na tranqüilidade da alma, assegura e consolida a obrigação, dar-lhe solidez e consistência. A crença e a forma de exercê-la é pessoal, subjetiva, diversificada, não é necessariamente monoteísta, pode ser politeísta, pode ficar em torno de um Deus ou em torno de várias entidades deificadas. Mas ela é imprescindível. O dito materialista, ateu, agnóstico, descrente, no fundo tem a sua crença, a sua observação transcendental desses mistérios que estão além da mente. É a meta-física, que não deixa de ser uma crença ou a busca dela. A diversão, que é essencialmente espiritual, quando se busca, após o cumprimento da obrigação e do exercício da devoção, o prazer, a alegria, a auto-estima, a socialização e interação com o meio, com os familiares, com os parente, com os amigos, com os companheiros de trabalho e de jornada, desde que não conduza à auto-destruição e não impulsione a pessoa para tentar destruir e desestruturar a harmonia da sociedade. Vício que domina e faz o cidadão perder o controle de si mesmo e o controle da boa convivência com seu grupo, decididamente não é diversão. E pode levar a pessoa à perversão, a praticar o mal contra si e contra seus semelhantes. A diversão deve ser então a continuidade e o complemento para a obrigação e para a devoção. O divertimento não pode ser despregado do tríduo "obrigação, devoção e diversão", porque tem consequências trágicas para a pessoa e para toda a humanidade. Mantendo e vivendo bem dentro dessas três circunstâncias essenciais da vida, obrigação, devoção e diversão, tudo o mais na vivência pessoal correrá dentro de um clima de perfeição, os males serão amenizados, a segurança será garantida, a violência diminuirá, as guerras serão cessadas. A natureza, sendo respeitada, não reagirá com ciclones, tempestades, rolagem de barreiras, desclimatização e desoxigenação que fulminam seres humanos, trucidam vidas preciosas, varridas inocentemente pelos escombros das catástrofes. Assim, gente, seres humanos, lembrem-se de seguir a obrigação, exercer a devoção e curtir a diversão. Nessa tríade está a segurança da vida, a harmonia da sociedade, a irmandade e a fraternidade. Eu e quem mais seja monoteísta, respeitando ecumenicamente quem tenha idéias diferentes, achamos que o nosso Supremo Criador assim quer e ensina.
Escrito por Virgolino às 09h28
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Crônica/Reminiscências
Publicada no Blog da Maria Helena 
Por José Virgolino de Alencar “Cinema Paradiso” é um filme dos anos 80, do diretor italiano Giuseppe Tornatore, que conta a história da amizade de um menino de um pequeno vilarejo com o projecionista do modesto cinema local. O filme mostra a trajetória de Salvatore di Vitto, apelidado de Totó, uma criança típica dos burgos interioranos de qualquer parte do mundo, sua infância difícil, seus problemas da adolescência, a fase adulta, a descoberta do amor e da vida. Um exército de Totós pode ser formado no mundo, constituído de crianças que, mesmo em meio às dificuldades da vida, encontram no cinema, ainda que modestíssimo, um divertimento que lhes preenche uma faceta agradável de seu viver. Quem, como eu, tem origem assemelhada com a de Totó não esquece o seu ‘cinema paradiso”, a sala humilde, de projetor mambembado, imagem desfocada, porém fascinante e mágica para crianças adstritas àquele limitado horizonte. Em Piancó, onde nasci, nos anos 50, nem tinha prédio para exibição de filmes. Meu “cinema paradiso” era o pátio da matriz, onde um herói cinéfilo vinha, em uma marinete, da vizinha cidade de Patos, com a película, o projetor e a tela, passando filmes de graça e eu nem lembro quem era o mecenas patrocinador de uma diversão que muda de lugar, avança tecnologicamente, sem nunca deixar de exercer o fascínio sobre as pessoas em todos os quadrantes do planeta. No “cinema paradiso” de Piancó, exibia-se os faroestes de Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Rocky Lane, Gary Cooper e tantos outros heróis do western, como também as aventuras de Tarzan. Um filme, entretanto, era exibido repetidamente e fazia enorme sucesso. Era a história de Santa Maria Goretti, uma virgem atacada e morta a facadas por um louco homicida, que a gente assistia tantas vezes passasse. A fita se quebrava, a projeção paralisava, mas a criançada esperava sem cansar o recomeço do filme e a repetição dos defeitos. Não havia pipocas, nem coca-cola, nem qualquer aperitivo. Os cowboys, os bandidos, o doidinho amigo do mocinho, a mocinha vestida dos pés ao pescoço, tudo isso causava um frisson na garotada, que curtia à beça. Ao lado das peladas de futebol, do banho no rio, do pulo na cerca dos roçados para uma inocente roubada de frutas, era o cinema a diversão a completar um dia de brincadeiras, simples, recatadas, puras mesmo, se comparadas com a agitação de nossos dias, de galeras e ondas pesadas começando já na pré-adolescência. Não quero que os tempos retrocedam, que recusemos o progresso, a modernidade tecnológica, os equipamentos digitalizados que são verdadeiros brinquedos a fascinar crianças e até adultos. Desejar que as reminiscências daquela época, de felicidade até inexplicada, sejam revividas na atualidade virtual, será mera retórica ou erudição intelectualienada, é até querer inverter a ordem inexorável da roda do tempo. Entretanto, a memória do que está gravado em nossa mente, em nosso HD cerebral, conquanto esteja sempre piscando na tela do monitor que as lembranças se encarregam de exibir imagens passadas, não deixa de induzir a um retorno nostálgico da época da infância. Como memória, os fatos registrados estarão nos acompanhando e proporcionando momentos de boas reminiscências. É assim que, reiterada e renitentemente, me batem as lembranças de meu “cinema paradiso”.
Escrito por Virgolino às 21h13
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