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Poesia

José Virgolino de Alencar

Vida sem história

 

Não sei se ele leva a vida

Ou se a vida é que o leva;

Como surfista ao sabor do vento,

É o seu sopro que o eleva;

Voa longe seu pensamento,

Vai às alturas seu sentimento,

O ser quem é, é o destino que o ceva.

 

Na estação dormiu demais

E perdeu o trem da história,

Pouco fez pra merecer

Louvores, honras e glória;
Quando se encaixou no trilho

Viu que fez um trocatrilho,

Escapuliu dele a vitória.

 

Os sonhos que desenhou

Vieram com pesadelos,

Corroeram o velho corpo,

Não sobraram quaisquer pelos;

Vendo a vida por um fio,

“Os planos”, diz, “desconfio,

Já não posso mais fazê-los”.

 

O que criou ninguém curtiu,

O que falou não o escutaram;

Pregou no deserto imenso,

Mas a sua voz calaram;

Deixou de ser pregador

E da paz um defensor,

No fim o crucificaram.

 

Se ele passou pelo tempo

Ou se o tempo é que passou,

Nenhuma diferença fez

Porque pouco realizou;

Como um castigo de sina

Assim a vida termina,

Cai o pano, enfim o drama se finou.

 

 

 



Escrito por Virgolino às 10h11
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