NETPAGE- J. VIRGOLINO ALENCAR


Crônicas

 

A vida e a morte

No mês de novembro próximo completarei 68 anos de vida. Não é uma idade nem melhor e nem pior do que a passada ou a futura. Contudo, pela proximidade dos 70, faz-me lembrar que, daí com mais 3.0, fecharei a conta em 100 anos, um século, portanto.

Quero chegar lá, mesmo com todas as dúvidas de que, numa idade dessa, 100 anos, a pessoa possa ser real e completamente feliz, esperando a qualquer hora a morte bater à porta, oferecendo a viagem que ninguém, em idade nenhuma, quer fazer.

A morte é um inexorável desígnio de Deus, mas, das coisas que o Criador nos oferece, é a única que a gente, se pudesse, rejeitaria. É uma má companhia, ainda que venha com o consolo de que está nos levando para junto do Pai.

Como o Pai é onipresente, ou seja, Ele está aqui na terra, por quê, então, não nos deixa junto Dele por aqui mesmo, vivo, vivendo, trabalhando e produzindo? Ele nos dá tudo e quando a gente nem ainda realizou totalmente o que planejou vem a morte, em nome de Deus, e revoga tudo, apaga tudo, transforma-nos em pó, ou seja, em nada.

Esse contrato a termo, sem aditivo, eu assinei a contra-gosto, forçado, porquanto é irrecusável e irretratável.

Entretanto, desejaria e muito que não tivesse essa circunstância fatalística do morrer, preferiria a eternidade do viver aqui na terra. É bom viver, com saúde, com paz, com harmonia, amando, gozando.

Ainda que tropeços nos tirem a paz, abalem a saúde, ameacem a harmonia, mesmo assim não nos anula a vontade de viver, salvo os casos de extremo desencanto com a vida, que leva a pessoa ao suicídio.

Acho que o suicídio é o convite da morte diante da fraqueza da pessoa, ou até pode ser o contrário, a pessoa quer resistir, fugir, mas a maldita cutuca o sujeito insistentemente e ele se entrega. Eu tento resistir, não antecipar a data e somente me dar por vencido pela natural esclerose e falência dos órgãos vitais que fatalmente chegam e determinam o finamento do contrato.

Tiro na cabeça, corda no pescoço ou salto acrobático de um prédio alto para encontrar com a morte, com certeza disso aí eu fujo e ela não me pega.

Portanto, 68 são muitos anos, mas espero mais números múltiplos de 2, de preferência uns 20 ou mais múltiplicadores.

Essa rapadura doce da vida eu não quero entregar à fatídica nem tão cedo. O amargo fel da morte só quero sentir nas últimas, lá para as calendas gregas.

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O contemplar do pôr-do-sol e o ciclo da vida.

Fim do dia, à tardinha, contemplar o pôr-do-sol, sentindo a brisa da noite chegando, faz a gente refletir como foi o caminhar ao longo do dia. Com certeza houve momentos de realização de sonhos, de concretização de planos, satisfação de desejos, vitórias somadas às vitórias acumuladas da vida. Por outro lado, contudo, é possível que tenha ocorrido intempéries, dificuldades, frustrações, a tornar incompletas as vitórias e colocar pontuações negativas no caminhar.

Mas nada disso pode trazer desânimo, deve ser encarado como vicissitudes que desafiam as nossas forças, querendo enfraquecê-las e fazer esquecer que os momentos de realização dos sonhos, a concretização dos planos,  a satisfação dos desejos e as vitórias somadas superaram os pontos negativos.

Olhando o sol baixando e sumindo no horizonte, a alma se renova e se prepara para o descanso noturno, o sono, os sonhos, o relaxamento da mente e do corpo, para, ao acordar, abraçar o nascer do sol no amanhecer, retemperar as energias e recomeçar o ciclo da vida, sentindo a brisa dos ventos matinais, com o ar puro que eles sopram e oferecem o oxigênio de que necessitamos para respirar e partir firme para a lida diária, buscando a realização de sonhos, a concretização de planos, a satisfação de desejos e conseguir somar mais vitórias às vitórias acumuladas da vida.

Esse é o ciclo misterioso da vida, que o contemplar do pôr-do-sol enche nossa alma de esperanças, de expectativas positivas, a par de ser uma imagem da mais bela arte desenhada pela natureza, como produto da infalibilidade do Criador.

A vida é assim, na sucessividade dos dias e das noites, uma busca incessante e imponderável pela satisfação de desejos, mesmo em meio às angústias, às dores, aos tormentos. Se o desespero não bater à porta e não penetrar furtivamente em nossa intimidade, sempre poderemos afirmar que viver vale a pena.

Os muitos pôr-de-sóis que contemplamos e os muitos abraços no nascer do sol induzem-nos a concluir que os mistérios da criação não devem deixar dúvidas, sejam metafísicas, transcendentais, sejam pragmáticas e realistas, sobre a importância do viver e sobre a necessidade de construir algo de produtivo na vida, deixar a marca pessoal na existência para perpetuamento de nossa passagem na Terra, nos acompanhando na mudança para o outro plano, misterioso também, tanto quanto inexorável.

Quando lá chegar e olharmos para aqui embaixo, que tenhamos o prazer glorioso de que as vicissitudes não foram nada diante dos sonhos realizados, dos planos concretizados, dos desejos satisfeitos, das vitórias acumuladas, no percurso transcorrido entre o nascer e o finar da vida.



Escrito por Virgolino às 16h37
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